Uma das maiores surpresas desta edição foi a quantidade de palestras abordando, direta ou indiretamente, o uso de IA, um contraste interessante com os focos do ano passado. Mas, acima do hype, ficou um consenso claro e uníssono: a engenharia de software não vai acabar. Pelo contrário, ela será mais necessária do que nunca.
Se o nosso papel está garantido, a grande divergência na comunidade gira em torno de como utilizar a IA no dia a dia. Em suma, o debate se dividiu entre um dilema de controle: microgerenciar a IA (como uma produtora estrita de código) versus macrogerenciar a IA (tratando-a como um dev júnior com mais autonomia, onde nós atuamos como guias e estabelecemos os limites).
No evento, duas referências ilustraram perfeitamente esses dois caminhos: o projeto do Rodrigo Serradura e a produtividade insana do Fabio Akita. Que fica claro se olharmos para as trajetórias de carreira deles, de onde essas filosofias vieram.
1. O Microgerenciamento (A Visão do Serradura)
Atuando como Principal Engineer e com uma longa história de debates sobre arquitetura e design patterns na comunidade, Serradura defende uma abordagem estruturada. O foco aqui é o microgerenciamento do código, isolamento de camadas e o ownership do longo prazo de um produto.
Essa organização acumulada através dos anos (em processos, documentação e padrões arquiteturais) é exatamente o que traz previsibilidade e crescimento sustentável para empresas, blindando o código contra a rotatividade de funcionários. Ao integrar a IA num cenário assim, ela ganha praticamente um super poder. Podemos perceber isso em benchmarks como o do AutoCodeBench, onde o Elixir, por exemplo, atinge cerca de 82% de taxa de sucesso, contra uma média geral de 50%. Isso ocorre graças à filosofia de "one obvious way" e ao paradigma funcional, que reduzem drasticamente o contexto que a IA precisa entender.
O "A-ha! Moment" de sua palestra ficou cravado quando ele exibiu o diagrama de evolução da sua arquitetura. O slide mostrava separações rigorosas de conceitos nas branches, aliadas a métricas de qualidade aferidas implacavelmente pelo Rubycritic:
- Family 1-2: Controller Architecture
- Family 3: Domain Structure
- Family 4: Entry Point Separation
- Family 5: Model Authority
- Family 6: Domain Naming
- Family 7: Bounded Contexts
Diagrama da evolução da arquitetura e métricas de qualidade.
Trazer essa disciplina e limites restritos para qualquer linguagem aumenta imensamente a eficácia da IA para a empresa a longo prazo.
Mais detalhes da visão do Serradura em seu projeto: railswhey/app
2. O Macrogerenciamento (A Visão do Akita)
Do outro lado, Akita traz a perspectiva de fundador e diretor da consultoria Codeminer 42. No mundo da consultoria, o que manda é resolver a dor do cliente, onde o foco está na entrega de valor e na métrica contratada.
Nessa filosofia, a tecnologia e a programação são focadas e medidas através do ROI. O negócio e o produto andam lado a lado com o código. É o ambiente perfeito para delegar mais contexto à IA e macrogerenciá-la, focando em entregar o valor final para o usuário. É uma abordagem parecida com a que acompanhamos nos grandes sucessos de iniciativas como OpenClaw e na linha de pensamento que a própria Anthropic deixou transparecer quando o Claude Code vazou.
Para o Akita, o ápice da quebra de paradigma veio no slide em que exibiu o painel de projetos de sua "maratona" de 2 meses: 8 projetos construídos e entregues em tempo recorde utilizando IA.
Oito projetos entregues em tempo recorde com auxílio de IA.
Como isso é possível? Ele explicou em outro momento focado em "aceitar a imperfeição". Quando o custo de gerar código cai drasticamente graças aos agentes, errar passa a ser barato. Múltiplos exemplos práticos deixaram claro que a iteração ganha tanta velocidade que consertar falhas não gera o gargalo do passado, pavimentando o caminho perfeito para entregas insanamente rápidas e contínuas.
Aceitando a imperfeição: a velocidade de correção supera o custo do erro.
Mais detalhes sobre o "Akita way": VS Code is the new punch card
Qual o melhor caminho?
Fica claro que estamos apenas no início desta onda, e todos nós precisamos amadurecer e descobrir a rota correta, se é que existe apenas uma. Pessoalmente, muito por conta da minha carreira possuir similaridades com a trajetória do Serradura, eu tendo a seguir pelo caminho focado no microgerenciamento e nos fundamentos mais estritos de código.
Porém, sejamos sinceros sobre o ambiente que nos cerca. O ecossistema Ruby respira o lema "Convention Over Configuration" da cultura Rails desde a sua concepção. Essa tendência da comunidade de preferir o pragmatismo e a velocidade aponta que o âmbito geral penderá mais para o lado de Akita.
Acabou o Espaço para a Fauna Dev
Independentemente de qual caminho usamos para chegar em produção, seja esculpindo arquiteturas ou maratonando deploys, estamos vendo um aviso claro para uma parte dos devs.
A era daqueles que chamávamos de "fauna dev"2 ou de "programador ruim"3, chegou ao fim. Chegou a hora em que não existe mais espaço no mercado para quem apenas sobrevive fazendo CRUD ou mantendo monopólio de áreas do sistema. Estacionar virou sinônimo de demissão programada.
Um vibe code não especializado, sem review e sem ownership, pode enganar em curtos prazos, mas quebra com o mundo real. Apenas uma base firme em engenharia garante a estabilidade de longo prazo de um sistema. Não importa qual atalho a IA consiga pegar, ser capaz de orquestrar um ambiente de produção no longo prazo não será absorvido autonomamente tão cedo. E é por isso que, independentemente da ferramenta que tenhamos à disposição, a sobrevivência é para quem entende que a responsabilidade, como sempre, será inteiramente nossa.
2 Termo que usávamos quando trabalhei em consultoria (não a Codeminer), para quando encontrávamos soluções exóticas, como um calendário feito manualmente, dia a dia, ao invés de um simples loop; ou uma autenticação não determinística, onde o mesmo usuário e senha davam certo ou errado dependendo do servidor em que batiam.
3 Termo utilizado pelo Akita para se referir a programadores comodados que estão sendo demitidos em layoffs.
